Festa de Sant’Ana – 26/07/2011

Padroeira da cidade e da Diocese de Anápolis

“Vamos fazer o elogio dos homens famosos, nossos antepassados através das gerações. Seus gestos de bondade não serão esquecidos”.

Estas palavras ouvimos hoje no início da primeira leitura, do Livro do Eclesiástico. Este livro traz muita sabedoria humana, tirada da vida cotidiana marcada pela confiança em Deus. A Palavra de Deus nos ensina a reconhecer aqueles que nos precederam e nos deixaram uma mensagem que perdura pelos séculos em forma do bem que eles fizeram a favor de todas as gerações. Somos convidados a sabermos valorizar e acolher o exemplo e os ensinamentos deles.

Hoje celebramos a festa de Sant’Ana, Padroeira da cidade e da Diocese de Anápolis. Junto com ela, a Igreja celebra ser esposo São Joaquim.

Os Evangelhos não dizem nada a respeito deste casal santo. A razão disso está no fato de que o foco da pregação dos Apóstolos está no anúncio de Jesus Cristo morto e ressuscitado, Senhor e Salvador de todos. Mas, a mais antiga tradição da Igreja e também alguns escritos que circulavam como estórias edificantes nas primeiras comunidades de cristãos nos deixaram o conhecimento suficiente para serem proclamados santos e para conhecermos um pouco da sua vida. Sua memória se consolidou desde os primórdios da Igreja, porque também eles, como tantos outros homens e mulheres da História da Salvação, participaram da realização do plano salvífico de Deus. Deus entra na vida deles de forma anônima e silêncisa, também bastante sofrida. Era um casal em idade avançada sem ter filhos. Para a sociedade daquele tempo, este fato era o sinal de que Deus retirou deles a sua bênção. O seu sofrimento era grande e nos lembra a lógica do Evangelho, que é lógica da cruz, da contradição. Jesus disse: “Toma a sua cruz e me siga”. Ele mesmo, esperado como Messias triunfante, tornou-se Salvador pelo caminho da humilhação, do desprezo, da rejeição. Assim, a vontade humana nem sempre corresponde à vontade divina. Mas sempre a vontade divina deve ser guia para a vontade humana: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e o resto vos será dado em acréscimo”. A prosperidade e a felicidade terrena têm sua fonte rica nos caminhos de Deus. Se nós desejamos o bem a nossa maneira e Deus nos “nega”, é porque nos preparou algum bem maior. Nisto podemos crer. Assim experimentaram Joaquim e Ana. Deus lhes deu uma filha, Maria, que não só deu alegria ao casal desconsolado, mas a toda a humanidade.

Queridos Irmãos e Irmãs.

1) No clima solene desta festa e na proximidade da Semana Nacional da Família, gostaria que voltassem a nossa atenção a uma realidade atual e sofrida do nosso tempo – a família. Sabemos quanto os últimos papas se dedicaram a este tema. As Igrejas locais, as dioceses, trabalham com empenho na Pastoral Familiar. É um tema muito atual e urgente, diante da atual crise da família. Ela é ameaçada e atacada de todos os lados, de tantas formas e por tantos meios. Esta crise é produto de uma antropologia errada, de uma visão destorcida que o homem é. O resto é fruto e consequência deste desvio.

Mas nós, cristãos, discípulos de Jesus Cristo, queremos conhecer mais a fundo e afirmar que a família não é produto de uma cultura, de uma época que passa, mas está desde origem nos planos de Deus, faz parte da sua criação. É interessante notar que o livro de Gênesis, coloca no cume da obra esplendia de Deus a criação do ser humano. Criou-o “a sua imagem e semelhança. Homem e mulher ele os criou” (Gn 1, 27). Criou um como complemento do outro e como ajuda recíproca, para formarem uma unidade só. E deu-lhes uma missão: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra…” (Gn 1, 28). Portanto, não é o ser humano em si a coroação da obra criadora de Deus, mas sim a família. Na verdade, a mensagem da Bíblia é esta a respeito do ser humano: criado para ser família. A família é, portanto, a mais excelsa e mais alta obra da criação.

2) E não podia ser diferente, pois a imagem e semelhança de Deus no homem começa pelo reflexo daquilo que Deus é: Santíssima Trindade. Três Pessoas num único Amor. Um único amor perpasse todas as Pessoas Divinas e faz unidade daquilo que trino.
Criou-os por amor e para amar. Deus não quis ficar sozinho nas suas perfeições e na sua felicidade. Quis comunicá-las, partilhar, e fruto desta partilha é exatamente a obra da criação.
O que une e complementa o homem e a mulher é o amor. E como Deus não quis se amar a si mesmo, assim o homem não foi criado para o amor egoísta, mas para ser complemento e razão da felicidade do outro.
Deus estabeleceu que o homem e a mulher continuassem a sua obra da criação. Por isso associou-os ao seu amor criador e lhes confiou a missão de serem fecundos e de multiplicarem-se. A vontade de Deus é esta. A verdade sobre o ser humano é esta.

3) A família deve ser aberta à vida. Deve acolher e amar os filhos desde a sua concepção. Deve também dar carinho, gratidão, amparo aos idosos, que já deram a vida para os filhos e é justo que sejam retribuídos e compreendidos. E não podem ser abandonados nas suas fraquezas, dores ou solidão. A abertura à vida de uma família cristã implica que a vida seja protegida e defendida desde a sua concepção até o seu fim natural.

4) A família deve ser forte na fé e na confiança em Deus. Como Joaquim e Ana, viver o espírito de súplica e oração. A oração é a forma de reconhecimento a Deus, faz conhecer mais profundamente o sentido da vida, especialmente a destinação do homem para a eternidade, ajuda a educar os filhos.

5) Porém, nem todas as pessoas possuem a mesma fé e a mesma visão que nós, embora todos sejam igualmente filhos e filhas de Deus, fruto do seu amor. A família cristã deve tornar-se missionária. E o campo da missão é muito vasto. Às vezes nós mesmos sucumbimos diante das dificuldades, ficamos intimidados. Às vezes as nossas próprias dificuldades não nos deixam dar testemunho. Às vezes caímos nas mesmas tentações do mundo, embora nos esforcemos a viver a nossa fé. É assim mesmo. É preciso ir contra a corrente, movidos pelo vento da verdade. É preciso caminhar mesmo nas tempestades. É preciso transmitir às crianças, adolescentes e aos jovens o inestimável valor da família.

Que a vovó Sant’Ana, como carinhosamente vocês chamam a sua Padroeira, e seu esposo São Joaquim ajudem-nos a consolidar estas convicções e a sua intercessão seja merecedora das numerosas graças e bênçãos de Deus para todos nós.
Amém.

Dom João Wilk,
Bispo de Anápolis

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