Diocese de Anápolis

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Árvore boa dá bons frutos

Homilia na Festa do Santíssimo Nome de Maria, durante a Assembleia do Regional Centro Oeste
12/09/2015

Lucas 6, 43-49

No Evangelho de São Lucas (6, 43-49) Jesus transmite aos seus discípulos a importante mensagem por meio de duas figuras: árvore e frutos, casa na rocha ou na areia.

Falando da relação que existe entre a natureza da árvore e tipo de frutos, Jesus indica a nossa identidade e a nossa missão. Há muitas árvores no mundo. Somos livres a colher qualquer fruto de qualquer árvore. Mas todas as árvores são boas? Todos os frutos são saudáveis?

A Sagrada Escritura, basicamente, divide a mencionada diversidade das árvores em duas: árvore do paraíso,  da sabedoria do bem e do mal,  e árvore do Calvário, a da cruz, cujo fruto é o perdão dos pecados e a redenção. Quem somos nós diante destas duas opções e o que se espera de nós?

Na Carta aos Colossenses São Paulo diz: “Vós sois amados por Deus, sois os seus eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão, paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente”. (Col 3, 12-17).

A árvore boa é indicada também com expressões como “filiação divina” – somos filhos adotivos de Deus, filhos no Filho. Somos eleitos, privilegiados. O Batismo selou esta eleição. É o dom gratuito e nos confere esta identificação. Somos frutos saborosos do amor misericordioso de Deus.

O nosso progresso espiritual consiste em levar à plena maturidade da qualidade de filhos de Deus, da mais perfeita identificação com Jesus e com o seu Evangelho. É crescer na consciência do que significa tal dom e traduzir esta consciência nas atitudes de reconhecimento, acolhida, adesão à cruz redentora, gratidão. É o coração transformado interiormente pela força da graça da filiação.

Isto não acontece sem a nossa participação. Quando os Apóstolos foram chamados para seguir Jesus, “imediatamente deixaram as redes e o seguiram”. Ser discípulo é exercício de liberdade, de gratidão e de compromisso, saber fazer escolhas. Por isto, Jesus, no exemplo da casa construída na rocha ou na areia nos alerta a não sermos acomodados e indiferentes. Está em jogo uma alta aposta: a vida ou a morte.

A falta de compromisso e de empenho da nossa parte, as negligências e as fraquezas criam certos riscos e perigos.

– Os frutos devem ter tempo para amadurecer. Colher frutos verdes faz com que o gosto não seja agradável. Isto se vê no entusiasmo inicial, empolgação fácil, motivações de pouca duração, falta de constante atenção e perseverança. As frutas compradas no mercado, se são imaturas, recheadas de conservantes, não tem o gosto que se espera e murcham sem chegar à maturidade. São, mas não cumprem a sua destinação.

– Do outro lado, os frutos podem apodrecer, quando:

         – não são colhidos na hora certa: é a espiritualidade fraca ou intimista, sem compromisso com a missão e com a ação;

         – os frutos se deterioram, quando são colhidos de forma inadequada: é a formação cristã falha ou insuficiente, da qual pode surgir o desvio da consciência, falta de coerência entre fé e vida;

         – quando caem em terreno danoso: quando a influência do ambiente, o respeito humano, ser “politicamente correto”, ou seja não desagradar a ninguém, tornam-se mais fortes do que os apelos da fé e os princípios que professamos. Aos poucos a consciência enfraquece e se acomoda, as motivações perdem força, ficamos na margem na nossa própria identidade cristã;

         – quando não são consumidos a tempo ou só em parte ou machucados: é o deixar tudo para depois, falta de ânimo, de compromisso, de perseverança, qualquer desculpa serve para “abandonar o barco”, culpando os outros;

         – quando são atingidos por pragas: é o pecado em todas as formas, sem receber o remédio do amor divino na humilde conversão e do retorno ao primeiro amor;

         – e o pior: uma fruta podre contamina muitas outras: é o escândalo, infelizmente presente entre os discípulos de Jesus, na sua Igreja, ao qual o mundo é tão sensível.

A rocha como fundamento é a verdade do Evangelho como nosso programa de vida. Podemos citar o exemplo de fidelidade de tantos mártires de ontem e de hoje, degolados com o nome de Jesus nos lábios. Homens e mulheres, famílias que dão inveja pela sua luta em salvar as promessas dadas, às vezes fracas nos elementos humanos, mas fortes nas convicções que a vida é uma só, que vale a pena lutar para preservá-la íntegra, que é dom de Deus, do qual Deus pedirá um relatório, baseados na convicta e autêntica devoção e no amor a exemplo de Jesus – até à cruz.

O Papa Francisco, nos seus gestos e palavras, nas cobranças que nos faz, mostra essa transformação do coração ao Evangelho. A sua espontaneidade demonstra que o Evangelho não é um estilo estudado, pensado em vista do efeito. É homem identificado com o Evangelho e com os seus valores. Do Evangelho assimilado lhe vem alegria, “cultura de proximidade”, criatividade espiritual, profundidade das expressões, simples e profundo senso pastoral.

Estamos celebrando mais uma Assembleia das Igrejas Particulares do nosso Regional Centro-Oeste. Somos animados e entusiasmados. Agora é a nossa vez…

Em primeiro lugar devemos pensar que todo fruto vem de uma árvore e todo fruto tem sementes de nossas árvores. A semente realiza a sua natureza quando, por sua vez, se lança no solo, brota e dá novos frutos. Com isto quero fazer a referência à nossa caminhada, de ontem, hoje, para o futuro.

As nossas Dioceses são frutos saborosos das árvores da evangelização plantadas no nosso chão pelas gerações de dedicados e abnegados missionários e missionárias. O rosto das nossas Igrejas é o rosto dos que nos precederam. É linda e empolgante a história da fé nas nossas terras…

Agora é a nossa vez. O testemunho dos antepassados é um incentivo para fazermos bem e melhor o que eles nos deixaram e ensinaram. Que vale a pena a caminhada, esforço de construir a comunhão, olhar para os desafios e ler com coragem os sinais dos tempos, saber discernir as respostas e agir com coragem. O que não podemos, é nos omitir, nem acomodar, nem desanimar, para não nos transformarmos em figueiras estéreis.

Assim nos ajude a graça de Deus e aquela a quem o próprio Deus disse, pelo seu mensageiro: “bendita és tu e bendito é o fruto do teu ventre”.

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