Padre Rogério comenta a liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum

Rezar a sós

Como o Senhor se manifesta? Não na agitação do vento, do terremoto ou no fogo. Mas numa leve brisa, porque diante de muito barulho não se pode ouvir o Senhor. Podemos confundir as coisas. O Senhor passa na brisa suave, porque ele traz tranquilidade para segui-lo. O Senhor manifestou-se dessa forma, dando a conhecer assim o seu misterioso modo de ser e a sua delicada bondade para com o homem fraco. Deus se manifesta na oração e no silêncio. E Cristo ensina a rezar no silêncio da noite.

O dia tinha sido intenso, como outros tantos de Jesus. Depois de ter feito muitas curas, de reconfortar todos com sua palavra, ele sentiu a necessidade de ter umas horas de recolhimento íntimo para falar com o Pai. Precisa rezar a sós. Jesus, então, mandou que os apóstolos seguissem para o outro lado do mar. Ele orienta os discípulos a subirem na barca e, talvez com um empurrão, faz que se dirijam para águas mais profundas. Ele assim o fez para que os apóstolos descansassem e para que ele pudesse rezar. Jesus faz a oração a sós para ouvir na suave brisa a voz de Deus. Era à noite e continuou por horas rezando.

Mais tarde, Jesus foi à procura dos apóstolos que passavam dificuldades naquele momento. Ele não esquece deles. Era às três horas da manhã. Jesus veio quando a noite ia pelo fim, não antes. Veio andando sobre as águas, quando a provação estava chegando ao auge, assim como o cansaço. Quando tudo indicava que se devia resolver com as próprias forças, isso havia bastado para criar uma enorme distância dele.

Os apóstolos, porém, ficaram com medo. Mas Jesus tenta acalmá-los. Pedro é aquele que age prontamente e quer ir ao encontro do mestre sobre as águas. Pedro dirigiu a Senhor um pedido cheio de audácia e de coragem: “Senhor, se és tu, manda-me ir até onde estás por sobre as águas” (Mt 14,28). Pedro teve muita fé, e trocou a segurança relativa da barca pela confiança absoluta nas palavras do Senhor. Ele vai, mas o medo faz que comece a afundar. Esqueceu que a força que o sustentava sobre as águas não dependia das circunstâncias, mas da vontade do Senhor.

A barca sem Jesus sofre com a ventania. Nossa vida sem o Senhor sofre com fortes ventanias. O Senhor vem ao nosso encontro, mas o medo faz que não confiemos nele. Só depois que Jesus entra na barca o vento acalma. Só depois que Jesus entra na nossa vida, o vento acalma. Nesta situação, uma coisa é necessária para não afundar: não perder a confiança, não desanimar no meio das dificuldades, não olhar para baixo ou ao redor, para as ondas que se agitam, mas à frente, para Cristo. Somente quem vacila na fé, ou quem confia nas próprias forças, afunda. Mas quem olha para Cristo e anda, não irá afundar. Pense nisso.

 
Pe. Rogério Moraes
Catedral do Senhor Bom Jesus da Lapa
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