Entrevista – drogas e criminalidade

22/10/2014

1.Qual é a raiz do aumento da prática criminal e do consumo de drogas na sociedade? Qual é o fator social, espiritual, que leva a este quadro?

 São dois assuntos relacionados entre si: a violência como tal e a violência gerada pelo uso das drogas.

Infelizmente, presenciamos um grande aumento da violência na sociedade. O Papa João Paulo II chamava isso de “cultura da morte”. O povo simples e sábio costuma dizer: “quem semeia vento, colhe tempestade”. A escalada da violência é a tempestade que se intensifica, porque os ventos da destruição dos valores também estão aumentando. Portanto, a raiz da violência está na destruição e desagregação dos valores: da pessoa, da família, valores sociais, políticos, culturais, de respeito à natureza.

Pessoalmente, fiquei impressionado, quando, anos atrás, o Brasil, em plebiscito, rejeitou o estatuto do desarmamento. As pessoas de influência e de interesse usavam o argumento de cerceamento de liberdade e de privação de direitos. O fato é incontestável que a maior circulação de armas é ocasião próxima para crime, especialmente nas mãos de pessoas mal intencionadas ou pouco formadas. A liberdade é um grande valor, mas não é absoluto. É condicionada e limitada pelo direito e pelo bem do outro. Por exemplo, se não houvesse a lei de limites de velocidade nas estradas, os desastres seriam muito maiores do que já existem. Vivemos numa sociedade e a sociedade deve se organizar para proteger o bem comum. Em função disso também a liberdade deve ser sujeita ao bem comum.

Outro fator que gera aumento da violência é a espetacularização da violência. Refiro-me aos meios de comunicação que veiculam filmes e programas permeados de violência. Mesmo aquelas reportagens que aparentemente comunicam indignação pelo crime, acabam suscitando apenas curiosidade, curiosidade, perda da sensibilidade pelo valor da vida. Para as pessoas desprovidas de formação é uma boa escola de se praticar mais violência, contando para isso com a impunidade.

O uso de drogas, sem dúvida, aumenta a criminalidade. Contudo, ao invés de ir a essa relação causa-efeito, gostaria de ir ao algo mais radical e muito mais positivo: o resgate da família e de seus valores como ajuda insubstituível para a nossa sociedade. O outro polo também é verdadeiro: a falta de família e de seus valores fragiliza o jovem e o deixa sem o fundamento necessário para conseguir resistir aos atrativos do mal.

A família, como sempre, é a célula base da sociedade, a grande formadora de valores. Infelizmente, os valores da família estão sendo frequentemente agredidos. Por outro lado, os pais já não encontram um espaço de liberdade e de virtudes para educarem seus filhos; deixam-nos às vezes nas mãos do Estado, das escolas, de terceiros. Muitas vezes, nossos adolescentes e jovens vivem o drama da separação dos pais, ficam sem chão familiar e são “educados” fora do lar. Frágeis afetivamente e levados por “amiguinhos”, os jovens vivem por vezes experiências profundamente marcantes e traumáticas. Tais experiências são alienantes da dura realidade que vivem no dia a dia.

Junto a esses fatores familiares e sociais, estão ainda aqueles que desejam enriquecer-se com a miséria alheia. Este é o caso dos traficantes, do comércio da droga e da omissão de algumas forças oficiais que deveriam ajudar a diminuir a criminalidade, mas que, às vezes, entram num sistema de corrupção do qual é difícil verem-se livres.

Em resumo, a meu ver, os defeitos da família hodierna e as atrações de uma sociedade de consumo e frequentemente corrupta em alguns setores, são responsáveis pelo consumo de drogas e consequente aumento da prática criminal. Infelizmente, ainda há vozes que querem piorar esse cenário, manifestando o desejo de legalizar as drogas.

2. Como a Igreja contribui para barrar este tipo de problema? Como é a atuação da Igreja no combate ao uso de drogas e para prevenir o aumento da criminalidade?

“Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). É o ensinamento de Jesus, o Príncipe da Paz. O cristianismo tem como a sua maior regra o amar a Deus e ao próximo. Temos o mandamento: “Não matarás”. E esta é a mensagem que a Igreja vive e prega.

O próprio culto religioso é uma grande prevenção contra a cultura da violência, porque constrói a paz nas e entre as pessoas. Da mesma forma, as numerosas pastorais e movimentos transmitem às pessoas os valores do bem. É uma grande faixa de população que fica preservada da influência do mal.

A Igreja, coerente com o que pensa sobre os valores da família e com o seu sentido de solidariedade, procura fortalecer exatamente esses dois campos: família e solidariedade. Temos vários movimentos dentro da Igreja que dão muito fruto ao atuar na orientação de pais e filhos e na formação de noivos e casais. Somos conscientes de que devemos dispor os membros de uma família para as virtudes que lhes proporcionarão um lar realizado, feliz, cheio de alegria e de paz: a fortaleza banhada pela caridade, a compreensão que não é debilidade, a correção que não omite as raízes dos problemas. A Igreja procurará educar sempre para o amor e a castidade, para a lealdade e a fidelidade, para a temperança e a sobriedade.

Além do mais, a Igreja tem centros de recuperação para dependentes químicos, como a Chácara Jesus Cura, o Oásis Santo Antônio, a Fazenda do Senhor Jesus, entre outros. Contra a criminalidade, procuramos fazer um trabalho de conscientização no presídio de Anápolis através da nossa Pastoral Carcerária.

3. Em Anápolis, a visão do bispo é que a guerra contra o crime e as drogas está perdida ou ainda existe solução?

 A luta contra a criminalidade não é perdida, embora há crimes que gelam a alma. É preciso pensar na multidão de pessoas de bem, que acreditam e vivem os valores, respeitam a vida e a paz. A nossa cidade está em grande expansão demográfica e econômica. Aumenta a população, aumenta a riqueza, mas aumenta também a pobreza. Não digo tanto a pobreza material, mas aquela interior. E esta, sim, aumenta os índices de criminalidade. Do outro lado, temos que acreditar na solidariedade social e nas nossas autoridades, que demonstram preocupação e competência. Os nossos policiais são pessoas que trabalham, mesmo arriscando a vida. A eles devemos o nosso reconhecimento e apoio. São pessoas que também são humanas e precisam de apoio, também da Igreja. Nos encontros que tivemos nos quartéis, por várias ocasiões, a presença da Igreja é acolhida com alegria e com confiança. Transmitimos a eles a certeza da proteção divina e da fé unida ao profissionalismo. Aproveito o espaço para encorajar os agentes de segurança a serem pessoas religiosas, a procurarem a orientação espiritual, uma vez que são sujeitos quase diariamente a uma pressão do mal.

4. O que precisa ser feito para diminuir a criminalidade e o uso de drogas? 

Eu poderia falar sobre a importância de favorecer mais audazmente a segurança pública, mas disso todos já são conscientes. Preferirei insistir nos valores familiares.

Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção dos poderes públicos para não desistirem da família tradicional: um homem, uma mulher e seus filhos. Criar modelos alternativos de “família” são traumáticos, criam situações fadadas à revolta interior mais cedo ou mais tarde. Gostaria de lembrar que os pais são os primeiros educadores de seus filhos: que lhes sejam efetivamente respeitado esse direito e facilitado seu exercício. Vale a pena lembrar que os pais devem considerar essa missão – a de ter filhos e educá-los – como a principal tarefa que Deus lhes concedeu. Que dediquem tempo aos seus filhos e conversem muito com eles num clima de confiança. Os pais sejam verdadeiramente amigos de seus filhos. Somente aos amigos se contam as coisas. Os pais que se afastam dos filhos fazem um desserviço a eles e à sociedade. Crianças e adolescentes com fundamentos sólidos são a melhor garantia de que não se renderão aos sedutores caminhos das drogas e da criminalidade. A Igreja sempre oferecerá à família  sua mão amiga porque acredita nela e vê nela o segredo para o correto desenvolvimento social, também no que diz respeito à segurança dos cidadãos.

+ João Wilk, OFMConv.

Ir para o topo