Liturgia de domingo: celebramos a Solenidade da Ascenção do Senhor

Vou, mas fico

Se ouvíssemos sua voz ressoando em nossos ouvidos… Se tocássemos em seu manto quando Ele passasse por nós… Se O víssemos a olho nu como um reflexo de beleza e candura… Se sua presença preenchesse os intervalos corridos e apertados de nossas vidas… Se sua presença real, física e verdadeira permanecesse além do tempo e do espaço e tocasse no nosso tempo e nosso espaço… Com um suspiro acordamos do nosso sonho e tocamos na realidade crua e nostálgica da festa que estamos celebrando no dia hoje: a Ascenção do Senhor. Jesus parte, ascende aos céus, vai embora… Parece que a esperança se esvanece, a história termina, o conto de Cristo chega a seu fim; mas é justamente ao contrário, a presença de Jesus se transforma, Ele vai, mas fica, vai na matéria corpórea, mas fica no espírito, sua presença continua tão real e viva na Eucaristia, na pessoa de seus discípulos e na sua Igreja. E se na festa da ascensão de Jesus sentimos a nostalgia de sua partida somos ao mesmo tempo confortados por sua presença tão intensa e verdadeira como real e eficaz em sua Igreja.

Onde louvar-Te? Onde amar-Te? Como conhecer-Te? Como reconhecer-Te? Na Igreja. O sentimentalismo das perguntas que brotam da partida é respondida pela realidade que toca a todos nós cristãos. “Aquele Jesus que subiu aos céus…” (cfr. 1ª leitura) é o mesmo Jesus que disse: “… eis que estarei convosco até o fim dos tempos.” (Evangelho) A partida de Jesus não incumbe numa ausência, mas ressalta uma presença gerando um enorme paradoxo quase contraditório: Vou, mas fico. Jesus vai, ascende aos céus, mas fica presente na sua Igreja e somente na Igreja de Jesus Cristo se encontra sua presença real e eficaz que vai além de uma presença espiritual subjugada e condicionada a um sentimentalismo barato e efémero, é real e verdadeira, eficaz e atuante. Na Igreja de Jesus Cristo somos confortados por sua presença, consolados em nossas dores, fortalecidos em nossas enfermidades, animados e protegidos. A ascensão do Senhor celebra ao mesmo tempo a partida de Jesus e sua permanência como uma contínua presença transformada dentro de um espaço temporal. Jesus se faz presente na sua Igreja, O tocamos em cada irmão, Lhe abraçamos em cada necessitado, O adoramos em cada Eucaristia, O vivenciamos em cada Santa Missa, O escutamos na Sagrada Escritura proclamada pela Igreja, bebemos de sua sabedoria e de seus ensinamentos na doutrina da Igreja… e somos tocados por sua presença em cada sacramento, perdoados na confissão, consolados na unção, fortalecidos na comunhão. Na Igreja de Jesus Cristo encontramos o próprio Jesus Cristo de tal maneira que a Igreja vai além de uma instituição cheia de normas e leis, burocrática e ultrapassada, a Igreja é o lugar propício de uma experiência e de um encontro com Jesus Cristo, pois Ele é a Cabeça da Igreja (cfr. 2ª leitura).

“Ele está no meio de nós”, uma resposta quase automática, mas que desvela a profundidade e a grandeza da festa que estamos celebrando hoje: Jesus não nos largou, não nos deixou à deriva, sua presença é real, Ele que governa, atua e guia a sua Igreja, e mesmo que haja tempestades e ventos contrários, Ele está presente protegendo e fortalecendo. A ascensão de Jesus não é um abandono, mas uma permanência tão intensa que somente aqueles que são Igreja conseguem sentir e experimentar, e o sentimento de nostalgia, próprio da partida, dá lugar ao sentimento de esperança e alegria porque Ele foi, mas ficou.

Pe. Carlito Bernardes Júnior
Capelania Universitária Santa Clara
Ir para o topo